O setor sucroenergético brasileiro registrou em 2024/2025, a segunda maior safra de cana-de-açúcar, superou 676 milhões de toneladas, ocupando uma área em torno de 10 milhões de hectares, gerando divisas, milhares de postos de trabalho e respeitando o meio ambiente. O segmento vem ampliando sua participação na matriz energética nacional e respondeu por 33% de toda a energia renovável produzida no País em 2025. Hoje 90% do etanol comercializado é certificado pela Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), que nos últimos cinco anos evitou a emissão de 147 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera global. Atualmente o Brasil é o único País do mundo que tem a pegada de carbono de biocombustível auditada. Do ponto de vista econômico no mesmo ano a cadeia produtiva sucroenergética, gerou US$ 19,8 bilhões em divisas externas, empregando em torno de 6% da população economicamente ativa do Brasil. A produção de cana-de-açúcar responde pela 3ª posição no consumo nacional de fertilizantes, perdendo apenas para soja e milho. Esses 3 cultivos somados respondem por 72% do consumo total de fertilizantes no País. A dependência brasileira dos fertilizantes importados é um tema que merece atenção. Em 2025 o Brasil importou 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes e a previsão é de que esse aumento ocorra nos próximos anos. Atualmente essa dependência supera 85%, enquanto nos cinco maiores produtores mundiais de alimentos - Brasil entre eles -, essa dependência não ultrapassa 40%. Mas nem sempre foi assim. A produção agrícola brasileira cresceu rapidamente nas últimas décadas e os investimentos na produção de fertilizantes não acompanharam. Aos poucos esse percentual foi aumentando e a gente se acostumou com algo que não deveria. Para mudar este cenário, em 2022 o governo federal criou o “Plano Nacional de Fertilizantes” - PNF, que tem metas desafiadoras, sendo a principal, atender entre 45% e 50% da demanda interna com fertilizantes nacionais até 2050. Em especial, a cadeia mundial de suprimento de nitrogênio é marcada por forte sensibilidade ao preço do petróleo, câmbio, fretes internacionais e principalmente tensões geopolíticas nas regiões produtoras. Um detalhe que merece destaque é que o fertilizante nitrogenado, diferente do fósforo e do potássio, não precisa ser minerado, pode ser sintetizado localmente, contudo, com forte demanda de energia.A instabilidade de oferta e preço dos fertilizantes nitrogenados, impulsionada pelo PNF, está fomentando novos projetos e priorizando aqueles que utilizam fontes e energia limpa. Estes são os “fertilizantes nitrogenados verdes” - que usam energia renovável para sintetizar amônia, a partir do hidrogênio obtido com a eletrólise da água, do nitrogênio filtrado do ar atmosférico, levando a redução significativa na pegada de carbono e maior emissão de CBios pelos consumidores destes fertilizantes.O risco e custo logístico, são outra fragilidade do setor de fertilizantes no Brasil. A produção regional de fertilizantes nitrogenados se apresenta como uma oportunidade para dar estabilidade e rentabilizar o agricultor brasileiro. A instalação de pequenas indústrias modulares, pode ampliar a previsibilidade de custos, simplificação logística, com equivalência agronômica na oferta de nitrogênio. Esta solução já é realidade para o produtor brasileiro. O projeto da Fontes Verdes vai produzir fertilizantes nitrogenados líquidos ou sólidos (aquamônia, ureia, nitrato de amônio ou sulfato de amônio) em indústrias modulares, atendidas por energia solar, próximo ao local de consumo, com baixas emissões de CO₂.Um módulo industrial tem capacidade para produzir 3.300 toneladas de nitrogênio por ano. Considerando a recomendação agronômica para cana-de- açúcar, a produção de um módulo consegue fertilizar área equivalente a 3,3 milhões de toneladas de cana por safra. O projeto FontesVerdes, tem grande sinergia com o setor sucroenergético, tanto pela possibilidade de atender a demanda energética com a energia cogerada pela própria usina, como aproveitando a oportunidade de aplicar fertilizantes nitrogenados líquidos associados à aplicação de vinhaça localizada no canavial.Nas últimas décadas, junto ao aumento da produção de etanol, veio o aumento na produção de vinhaça, resíduo industrial do processo de fermentação, hoje amplamente utilizado como fertilizante. Este uso nobre da vinhaça reduziu em mais de 50% a importação de cloreto de potássio (KCl) para fertilizar cana-de-açúcar, transformando o que era um resíduo industrial poluente, em um coproduto importante na cadeia produtiva, além de mitigar riscos ambientais.O lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, é reconhecido mundialmente pelo pioneirismo e inovação sustentável. Reduziu a dependência da gasolina durante o choque de petróleo de 1973 e desenvolveu um combustível com menor pegada de carbono. 50 anos depois, temos a oportunidade de tornar a produção de etanol ainda mais sustentável, utilizando fertilizantes nitrogenados de baixo carbono e fortalecendo a economia circular do setor. Por Guilherme Fontana, CEO da Fontes Verdes.